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domingo, 30 de março de 2014

A fotografia - conto

Outra excursão minha na vida de escrever contos, de muitos anos atrás (acho que uns dez):

A fotografia

Olhou em volta, o espaço pequeno e apinhado de coisas: imagens de santos, roupas espalhadas pelas paredes, figuras de revista, quase coisas típicas de pessoas que precisavam de dados de irrealidade em um ambiente tão cheio de aridez e concreto. Sentou-se ao lado da mais velha, que lhe parecia tão só, e iniciou a conversa pela foto que ela segurava tão pensativamente e que mostrava um grupo de sete pessoas reunidas em torno de uma mesa, brindando. A velhinha não se mexeu, e a cama rangeu quando Cris tentou se acomodar e puxar assunto – isso não deveria ser tão difícil para alguém que estudava a arte das palavras, pensou. O professor, porém, já a conhecia: havia escolhido ficar como seu monitor, enquanto os outros estudantes entrevistavam detentas diferentes. A ideia era explorar as conseqüências da prisão no comportamento delinqüente após uma pena superior a 10 anos. “Sua família?” “Olha, essa aqui é a Maria Amália. Tinha uns 20 e poucos anos quando essa foto foi tirada, viu como tem carinha de inexperiente? Esse vestido fui eu quem dei, uns dias antes, mas ela cismou que tinha que diminuir a barra para que ficasse de moda, viu como a barra está toda torta, só alinhavada... ela estava feliz, porque o rapaz por quem estava interessada tinha ligado no dia anterior e dito que antes do Ano Novo ela ia ter uma surpresa. Olha só os olhos dela, brilhantes... e escondendo o sapato que foi a avó que deu e como ela riu, dizia, que sapato mais antigo... o irmãozinho dela é esse aqui, o Carlos Eduardo. Tinha acabado de passar no vestibular, a família inteira orgulhosa, vê que ele está segurando a chave do carro? Seu Luís Alberto tinha prometido um conversível se ele conseguisse, e ele estudou tanto... entrou em três faculdades diferentes, foi uma comemoração só... Menino esperto, dedicado mas sem esquecer das pessoas, me tratava tão bem, era sempre dona Alzira a senhora está bem?, quer ajuda?, um menino de coração de ouro, ia dar um médico e tanto... aqui está Seu Luís e a Dona Beth, um daqueles casais que você não tem idéia de por que diabos estão juntos. Ele todo alegre, todo cheio de amigos, vivia trazendo um bando pra jantar sem avisar, dizia que se tinha ficado rico tão de repente era porque tinha que dividir sua riqueza com os outros antes que ela fosse embora de repente também. Um bigodão lustroso, viu?, que ele tomava mais conta do que dos filhos, comprava aqueles potes de coisas especiais pra passar nele, ficava cutucando quando queria fazer pose de sério. Homenzarrão, tinha uma voz engraçada, não combinava com o seu tamanho. A dona Beth não, era tudo o contrário: a voz que parecia temporal chegando sem avisar, um trovoeiro... e o temperamento cheio de nove horas, não podia ver ninguém com sapato em casa que fazia um escândalo, falava dos bichos e da sujeira da rua e de tudo de ruim que podia acontecer se as crianças deixassem cair uma migalhinha de pão que fosse no tapete da sala... a manhã toda gastava planejando umas comidas malucas pra servir pra amigas grã-finas, e à tarde ficava trancada no sótão pintando uns quadrinhos com corzinha de bebê e suspirando. Depois que teve o Carlinhos Eduardo prometeu que nunca mais ia passar pelas dores do parto, e quem disse, quando o Carlinhos já tinha pra mais de dez anos descobriu que estava prenha de novo. A gravidez mais cheia de frescuras que eu já vi, tinha que ficar deitada o dia todo, ela mesma brigava com o médico quando ele ia até lá dizer que ela estava bem, tinha que caminhar, se distrair, ficava doida... aí veio a Alicinha, olha que menina mais bonitinha... arteira, mas um docinho de criança, e esperta... antes de você ir com o fubá ela voltava com o bolo, posso te dizer... aqui ela já estava me vendo entrar, eu entrei pela porta dos fundos e só ela me ouviu...”, apontou para a menina no canto da foto. Devia ter uns sete ou oito anos, os cabelos chanel pareciam recém-cortados e o vestido, incômodo. Havia algo mais, entretanto: a garota parecia assustada, o olhar fixo, os movimentos paralisados. Antes que pudesse interroga-la, contudo, o professor a chamou e ela pediu desculpas, levantando-se. “Tenho que ir, mas obrigada pela atenção”, disse, educadamente. Pela primeira vez a velha levantou o olhar verde e penetrante: “Venha de novo, posso tirar uma foto sua...” “Acho que não posso, agora vamos visitar um outro grupo, sabe? É um trabalho de reportagem investigativa, estamos conversando com alguns detentos e então faremos uma matéria em grupo com as conclusões. Mas obrigada assim mesmo”, explicou, comovida com o que pareceu um apelo vindo da solidão. Afastou-se, acenando, e seu professor a interpelou, enquanto os guardas abriam e fechavam grades e outros estudantes formavam grupos nos corredores, prontos para sair do prédio. “Esperta você, não? Justo essa... aposto que disse que era inocente, como os outros... Como foi? Que impressões teve?” Cris pensou na própria resposta antes de coloca-la em palavras. Impressões eram tão... o oposto do seu verbo usual, imprimir, colocar no papel, dando vida à fios de imaginação... antes que o fizesse o professor continuou, segurando-a pelo braço para dar-lhe passagem pela última porta, onde havia o grande hall com uma mesa no centro, paredes esburacadas e janelas que davam para pátios internos. Resolveu ganhar tempo: “Qual era o delito?” O homem a olhou com o que parecia horror: “Você não a reconheceu? Meu Deus, que espécie de estudante de Jornalismo você é senão reconhece alguém que apareceu nas manchetes por meses, anos até? Houve até um documentário há pouco tempo... não acredito que você não se lembre, que perda de tempo! É a Velha da Máquina!!!” “A velha da máquina?”, repetiu, o peso das palavras parecendo insuportável. “É, a empregada de família que entrou em surto quando foi dispensada depois de anos e invadiu três casas da mesma vizinhança no Natal, com uma metralhadora que, dizem, comprou na favela, explicou o professor, gesticulando e parecendo se divertir com a história. Matou mais de trinta pessoas até ser mobilizada por um dos vizinhos que era bombeiro e havia ouvido os tiros, e assim mesmo tentou recarregar a arma. Tinha munição para toda a cidade... Eu ainda não consigo acreditar que você ficou falando com ela por uma hora inteira e sequer sabia quem era.” “Não, eu não sabia”, balbuciou, e olhou para o prédio da penitenciária. Pareceu-lhe ver um flash de uma janela.

Um comentário:

  1. Que legal! Fui lendo com uma curiosidade, fui lendo cada vez mais rápido (sou curiosa demais) e quando ele disse que era a velha da máquina, respirei! Quando leio um conto fico quase sem fôlego, leio rápido, quase que de assalto...rsss. Abraços!

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