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Leticia's favorite books »

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

aleticiale2017 - 1a. quinzena de fevereiro

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke. Esse é um pedaço da Carta número 8, que eu reli diversas vezes, acenando com a cabeça daquele jeito que a gente faz quando queria ter escrito e se sente a um tempo estúpido e profundamente intelectual:
No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar. Por terem os homens revelado covardes nesse sentido, foi a vida prejudicada imensamente. As experiências a que se dá o nome de “aparecimentos”, todo o pretenso mundo “sobrenatural”, a morte, todas essas coisas tão próximas de nós têm sido tão excluídas da vida, por uma defensiva cotidiana, que os sentidos com os quais as poderíamos aferrar se atrofiaram. Nem falo em Deus. Mas a ânsia em face do inesclarecível não empobreceu apenas a existência do indivíduo, como também as relações de homem para homem, que por assim dizer foram retiradas do leito de um rio de possibilidades infindas para ficarem num ermo lugar da praia, fora dos acontecimentos. Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança. Entretanto, quão mais humana, aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia. Nós outros, aliás, não somos prisioneiros. Em redor de nós não há armadilhas e laços, nada que nos deva angustiar ou atormentar. Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também, em conseqüência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo o que nos rodeia. Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo,pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos, devemos procurar amá-los. Se conseguirmos organizar a nossa vida segundo o princípio que aconselha agarrarmo-os sempre ao difícil, o que nos parece muito estranho agora há de tornar-se o nosso bem mais familiar, mais fiel. Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio.

Não amei o livro todo, houve cartas que me deixaram inerte e acho que não podia ser diferente. Mas houve passagens como essa, que acredito que são o que fazem o livro ser relido desde que foi publicado, há um século.

Aqui estão os sonhadores, Imbolo Mbue. Um desses livros comprados por impulso, porque adoro ler coisas diferentes e a autora era camaronesa - e eu não sei nem apontar Camarões no mapa, e parecia uma narrativa interessante, sobre um casal de imigrantes de Limbe que estava lutando para ficar em NY versus um casal de alta sociedade cujo marido trabalhava no Lehmann Brothers na época do escândalo. Bom, não decepcionou: foi mesmo bem interessante. Não acho que é um livro "muda a sua vida"nem que vou reler a cada x anos - sempre me lembro do Ítalo Calvino e da frase "um clássico é aquele que nunca termina o que tinha a dizer". Esse acredito que terminou, mas foi um discurso que ecoa e é consistente, foi uma ótima leitura.

The age of Innocence, Edith Warton. (A época da inocência). Gente, que surpresa. Eu estava na vibe de limpar a estante dos livros que estavam lá só fazendo volume, e esse, por ser um clássico, era desses que eu jamais teria tido coragem de me livrar. Aí comecei a ler, e começa um pouco lento, mas não muito. o sr. Newland Archer está apaixonado pela May Welland, e tece diversos comentários sobre a sociedade e sobre a prima della, Ellen Olenska, que fugiu do marido conde por alguma razão quase escusa, o que é semi imperdoável para a época. A Edith Warton foi a primeira mulher que ganhou o Pulitzer, em 1921, mas ele foi seu 14o. livro e só um dentre suas muitas obras. Sem dúvida vou buscar outras coisas dela, porque o livro é sutil e profundo, de um jeito que vi pouca gente escrever. Não tem o drama exacerbado de outros clássicos, não é óbvio nem pedante, achei realmente surpreendente. Adorei o final, adorei o fato de que os personagens parecem unidimensionais mas... nesse exato momento, o livro está na minha lista de doação, mas toda vez que penso nele acabo chegando à conclusão de que talvez ele volte pra estante. Vale ser relido.
P.S.: Como eu sou ligeiramente obcecada, fui atrás dos Pulitzer Prizes (que descobri que são dados só para autores americanos, não sabia), e descobri que só li 10% deles. A boa notícia é que os 10% que eu li eram de fato bons, então talvez valha a pena ir atrás dos outros.

Sempre seu, Oscar, uma biografia epistolar - Oscar Wilde. Esse é um sujeito tão plural, e acho tão lindo ser plural. Um cara que conseguiu escrever A importância de ser prudente, O retrato de Dorian Gray e Histórias de fadas, foi casado por anos, e feliz, amava seus dois filhos profundamente, se apaixonou tão cegamente por um cara que o deixou levá-lo à ruína completa, morreu tão pobre e arruinado... é uma vida realmente interessante, embora tão triste. Essa biografia inclui a carta que ele escreveu ao Alfred Douglas, o Boisie, que se eu encontrasse na rua ia ser empurrado pra baixo de uma carruagem. Que sujeito horrível! Wilde podia ser leviano e superficial, mas duvido que merecesse um companheiro tão cruel.

Delirio, Laura Restrepo - uma colombiana que estava na minha estante há um tempão. O livro é fascinante porque fala de um sujeito (Aguilar) que está perdendo a cabeça (comece a notar os padrões) porque não entende o que aconteceu com sua mulher Agustina (e as aliterações) que foi encontrada num estado de delírio num hotel e não recuperou  mais totalmente a razão. Aos poucos, vc vai notando o entorno - a família dela, que é cercada de gente envolvida com o cartel - é época de Pablo Escobar, claro - , o irmão dela de quem nunca se fala e subitamente está presente, e se exilou para poder ser quem é, homossexual - e o ex namorado, de quem dificilmente se entende o papel. A narrativa é delirante como Agustina, a tia que cuida dela tem um papel atrapalhado, e por vezes eu não sabia se era eu com dificuldades com a língua ou a intenção da escritora. Como há muita gente falando bem do livro, imagino que tenha sido eu. Não adorei, mas acho que pode valer a pena tentar.

A Audácia dessa mulher, Ana Maria Machado - esse é um livro que eu adorei desde o primeiro capítulo. Gostei do mote, gostei dos personagens, fiquei torcendo pra ninguém se tornar chato ou maluco. Quando, lá no final, estava achando que ia ser ridículo, eba!, não era. É um paralelo megainteressante, gostei dos personagens principais e dos secundários, e ao mesmo tempo que me lembrou a escrita antiga (Maria Jose Dupre, Vivina de Assis Viana, Pedro bandeira) que eu lia adolescente, me trouxe também novas informações. Vou procurar outras coisas dela. Obrigada, Silvia!

The kindness of strangers, Katrina Kittle - livro difícil, com o tema de abuso infantil, mas que foi difícil de parar de ler, mesmo com a testa franzida e o coração apertado.

What she knew, Gilly Macmillan - That was really, really good. I actually refused to leave the house before finishing it. It was about a boy who went missing with his mom after a walk in the woods and even though as I read it I kept thinking "It can't be this person or that person", you know it can actually be anyone, which is an awful feeling by the way. Lots of secrets came out - a la Lianne Moriarty - and the ending was as fulfilling as such a book can be. I love it when you are so involved with a story you can almost see the characters around you. Good job, Gilly!

Fernando Sabino na sala de aula - li numa sala de espera as 86 páginas de crônicas levinhas e fofas desse mineiro simpático. Gostei muito de uma na qual ele fica tão desacorçoado a respeito de um aviso mal escrito num elevador que perde até o andar no qual ia descer - se chama "Como nasce uma história", e valida o que eu acho sobre o fato de que à nossa volta estão sempre tantas histórias de tanta coisa acontecendo, é só ter os olhos abertos. Bem legal.

E assim caminhamos.

2 comentários:

  1. De todos os que você leu, a biografia de Oscar Wilde e o livro de Ana Maria Machado me interessaram bastante. De Wilde só li um conto que me encantou profundamente, pela escrita, a crítica e ironia, quero ler mais livros antes de ler a biografia. Abraço! ;)

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  2. Que bom que você gostou dos que eu emprestei. Depois me conta do da Ana Maria Machado, pq eu não lembro de nada, rs... mas hoje eu vim aqui pra falar do La la land. AMEI!! Que filme lindo, que música maravilhosa! Preciso, PRECISO ver de novo e ter aquela trilha sonora.

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