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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Desafio de livros - dia 08 - um livro impopular que você acha que deveria ser um bestseller

Day 08 - an unpopular book you think should be a best seller

Eu encarei 'impopular' como 'que não goza de popularidade; que não é conhecido pela maioria'. Assim sendo, pensei em dois títulos que acho que todo mundo deveria conhecer.

O primeiro é do Saramago. O Ensaio sobre a cegueira ficou famoso, e com razão, é fantástico. Mas esse livro tem a beleza da simplicidade: Todos os nomes. Essa foto (do site da Cultura) é da edição que eu tenho quase todos os livros dele, por sinal. Esse livro é sobre o sr. José, quem mais seria, um escriturário. Naquela narrativa gostosa do Saramago você fica sabendo que ele é um desses aficionados por rotina, cheio de hábitos, e que coleciona notícias de jornal sobre celebridades. Mas um dia alguma coisa acontece e no método dele (que inclui dados sobre os pais das pessoas famosas, com datas de nascimento e afins) surge uma discrepância - uma mulher que não tem nada de famosa, é só alguém comum. O sr. José não consegue conceber essa anomalia e decide ir atrás dessa mulher.
O Saramago tem a habilidade incomum e única de transformar as coisas de todos os dias em palavras que carregam em si toda a sabedoria que as gerações acumularam. É absurdamente lindo, quase banal,e  ao mesmo tempo profundamente significativo, porque tem a ver com uma busca de identidade e verdade - como devem ser as coisas realmente lindas, eu acho. Me ocorre o sentimento que eu sempre tenho quando olho pra cima e vejo as copas das árvores e penso, Nossa, como isso é bonito.
Entende por que eu acho que devia estar na lista de best sellers no lugar dos mil livros do Green?

O segundo livro é do Italo Svevo, um ilustre desconhecido, autor italiano da década de 20. O livro é sobre o Mário, cujo grande sonho era publicar suas fábulas e se tornar famoso com elas - e sobre o Enrico, amigo da onça dele que decide fazer um trote e fazê-lo acreditar que isso vai acontecer. Em 120 páginas ele conta como o Mário fica fora da realidade, ignorando tudo e todos, e como isso se torna relevante. Aparentemente o livro não foi traduzido para o português, só encontrei a mesma edição que eu tenho na Livraria Cultura aqui mas pra quem lê em inglês vale muito a pena. Ah, em tempo: se chama A perfect hoax (algo como "um embuste perfeito").

Trilha sonora: Cold War Kids, Hospital beds. Eles também deviam ser mais populares, não?
impopular
adjetivo de 2 géneros
que não goza de popularidade; que não é conhecido ou que não agrada à maioria
(De in-+popular)


impopular In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-08].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/impopular;jsessionid=BO7SuY-a+wU88ThP8NN4PA__>.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Desafio dos livros - dia 5 - um livro não ficção que você realmente gostou

Day 05- A Non-fiction book that you actually enjoyed

Corações sujos, sem dúvida. (resenha abaixo, desse site, da Companhia das Letras)
A Shindo Renmei, ou "Liga do Caminho dos Súditos", nasceu em São Paulo após o fim da Segunda Guerra, em 1945. Para seus seguidores, a notícia da rendição japonesa não passava de uma fraude aliada. Como aceitar a derrota, se em 2600 anos o invencível Japão jamais perdera uma guerra? Em poucos meses a colônia nipônica, composta de mais de 200 mil imigrantes, estava irremediavelmente dividida: de um lado ficavam os kachigumi, os "vitoristas" da Shindo Renmei, apoiados por 80% da comunidade japonesa no Brasil. Do outro, os makegumi, ou "derrotistas", apelidados de "corações sujos" pelos militantes da seita.
Militarista e seguidora cega das tradições de seu país, a Shindo Renmei declara guerra aos "corações sujos", acusados de traição à pátria pelo crime de acreditar na verdade. De janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, os matadores da Shindo Renmei percorrem o Estado de São Paulo realizando atentados que levam à morte 23 imigrantes e deixam cerca de 150 feridos. Em um ano, mais de 30 mil suspeitos dos crimes são presos pelo DOPS, 381 são condenados e 80 são deportados para o Japão. Nesta sua volta à grande reportagem, Fernando Morais conta a história da seita nacionalista que aterrorizou a colônia japonesa no Brasil.

Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Reportagem




 O Fernando Morais já tinha escrito Olga, e eu chorei cântaros. (uma expressão tão velha quanto 'raining cats and dogs', que ninguém usa, e que quer dizer que realmente foi triste - o cântaros, não o raining cats and dogs, que na verdade quer dizer chover muito. Afe, pior a emenda que o soneto aqui né), mas Olga tem todo um apelo fácil de entender, do amor de mulher, do amor de mãe, da guerreira, do soldado; são arquétipos quase. E foram feitos filmes e novelas retratando a Olga Benário e o Luís Carlos Prestes. Então você podia achar que por isso o livro era bom.

Só que não. Ao ler sobre algo tão obscuro quando a Shindo Renmei, você nota que o Fernando Morais tem um talento que poucas pessoas tem; conseguir contar uma história na qual as pessoas saltam das páginas, e tudo tem igual peso, seja o cenário histórico, seja a descrição. O cara é f... ( e melhor articulado que eu, que só consegui esse adjetivo para alguém como ele).

Outros livros de não ficção que eu amei:
Cartas a Nelson Algren, da Simone de Beauvoir. Quem falou que ela só amou Sartre? Nem sempre existe só um tipo de amor (eu diria quase nunca).

José e Pilar, do Miguel Gonçalves Mendes, que também é documentário. Saramago e sua mulher galega, a jornalista Pilar del Río, falando de trabalho, rotina, como se conheceram, sua vida de escritores. Impossível não morrer de doçura.

Clarice, uma vida que se conta, Nadia Gotlib - antes da biografia que ficou famosa nos últimos anos, havia essa, a primeira que eu li e me deu um vislumbre de quem era essa ucraniana judaica nordestina nômade gênia que não cabia em si nem em ninguém.

Fotos das minhas edições queridas aí embaixo:


Teve também O andar do bêbado, do Leonard Mlodinow, sobre como o acaso determina nossas vidas, que eu já li mais de uma vez (acho que pra entender melhor inclusive porque sempre que quero falar desse livro pra alguém tenho de me esforçar pra soar coerente e científica em vez de balbuciar: É tão legaaaaal). Tem um trecho aqui, ó.

E não sei se conta, porque li na faculdade, mas me impressionou muito e recomendo pra todo mundo que tem um vago interesse em educação, medicina, crianças, psicanálise... Françoise Dolto, Os caminhos da educação. Ela é uma médica e psicanalista francesa, trabalhou com Lacan, abriu um consultório para acolher crianças pequenas e tem ideias sobre educação e infância muito além de seu tempo (morreu em 88, aos 80 anos, acho).

Trilha sonora do dia: Is this love?, do Bob Marley. Sim, às vezes eu volto pro passado, embora o Bob Marley me dê aflição com a história de terem achado x tipos de piolho nele.