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sábado, 13 de agosto de 2016

A Letícia lê - quinzena de agosto

E aí que essa quinzena passou voando, principalmente porque estou trabalhando enlouquecidamente. Li uns livrinhos tontos, porque meu cérebro só dava conta disso, comecei muito timidamente Harry Potter, dividida entre querer reler todos eles e ler logo esse último antes de saber tudo pelos outros, e li Dostoievski, O idiota.
Esse idiota do título é o príncipe Mishkin (você vai achar uma grafia diferente a cada edição), e a origem desse nome vem desde Aristoteles ao fato de que ironicamente o idiota é o sujeito que não tem lugar na sociedade, basicamente porque ele foi escrito para ser uma mistura "de Cristo e Quixote". Isso quer dizer que ele é compassivo, ingênuo, honesto, com o coração sempre aberto e exposto, sabe? e, como nos idos de 1800, se apaixonou pelos olhos num retrato, veio de um sanatório onde estava por epilepsia, conta pra todo mundo como a beleza do mundo o fascina... ou seja, um indivíduo sem "capa"social, no sentido de vida em sociedade como a conhecemos na vida vazia.
Isso dito, há momentos nos quais você só acha que ele é... idiota. Desculpe, mas sim, há gente que não merece sua ingenuidade, sua compaixão, e isso não quer dizer que merece o oposto, e sim que não merece seu tempo, só que você siga adiante. E também há momentos demais nos quais os outros parecem ser retumbantes... idiotas. Literalmente batendo os pés e se batendo, como Gavrila e Rogojin. É algo que nos causa vergonha alheia, o fato de que o tempo todo há alguém "enrubescido", "querendo aniquilar o outro", "irado ao extremo", "incontroladamente enraivecido". Assim, estamos no jardim da infância?
Isso inclui todos os personagens principais, pra mim: do general ao príncipe, de Rogojin à Nastassja, de Gavrila à Totski, tenho um pouco de vontade de eu mesma dar um gritinho de "ah gente, vai lavar uma louça", mas aí me lembro da mãe do tuberculoso que teve seus móveis penhorados pelo general (esqueci o nome dela) e percebo que nem tendo louça pra lavar esse povo tomava jeito.
Claro, lá pelo meio com um romancezinho incipiente a narrativa ganha um fôlego porque o interesse humano é pelas emoções mundanas né. Mas vai e volta e vai e volta, e Jane Austen faz isso tão melhor. Desculpa, não deu. Mesmo com o final novelesco e mais agitado que metade do livro.
Não entendo se historicamente o comportamento do público era assim ou ele quis dar uma caricatura, (na verdade entendo sim, claro que era essa a intenção, assim como o título do livro, uma sutil ironia) mas era desconcertante, deprimente e, da perspectiva literária, desculpe, irritante, por conta da repetição das mesmas atitudes - a mensagem é clara e poderia ter sido passada em metade das páginas, porque claramente as pessoas permanecem... adivinha... idiotas. (e não aristotelicamente falando aqui).

Bom, é muito possível que a idiota seja eu e eu não tenha preparo espiritual para ler esse livro. Mas ao contrário de outros clássicos, que me dão camadas novas a cada vez que eu leio ou a cada capítulo, eu achei que esse me parecia uma repetição eterna do mesmo tema. Vou ter que reler Dom Casmurro, ou Crime e castigo, ou um desses que me foram queridos, para tirar esse ranço. Alguém que gostou do Idiota compartilha comigo o que eu perdi?

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A Letícia lê - já sabe. Robinson Crusoe, o Sono de 28 anos

Gente, peloamor. Assim, é verdade que foi um mês atribulado. Houve diversas mudanças no trabalho, o que finalmente culminou na minha saída; aí teve a semana-de-se-preparar-para-o-evento-do-adeus, a semana-do-adeus, a semana-pós-adeus. Sim, sou pisciana, essas coisas existem. Enfim - parênteses: foi uma jornada sensacional, só levo coisas boas comigo, estou bem, começo em outro cenário em breve, não há traumas. - Mas, voltando ao Robinson Crusoé: no começo achei que era por conta de tudo isso que estava difícil de ler.
Daniel Defoe tinha mais de 50 anos quando escreveu esse livro. Foi publicado em 1719, como folhetim, e tem o mérito de ter lançado o romance narrativo, porque era centrado em uma autobiografia fictícia contada em tom de história. Aparentemente, não foi sua primeira obra, mas foi graças a ela que ficou famoso. Um outro título dele é Moll Flanders. De qualquer jeito, não houve qualidade que o redimisse sob meus olhos, assim que o jovem alemão (sim, originalmente o nome era Robinson Kreutz whatever, mas como moravam no Reino Unido, não conseguiam falar o nome dele e virou algo como  Crusoé) se mostrou o adolescente mimado que havia enfiado na cabeça que queria ser marinheiro porque sim, e mais tarde viu tudo que lhe aconteceu como prova de que tinha errado ao desafiar as entidades divinas e estava sendo punido. #oi? Ele passa 24 anos na ilha tentando fazer coisas com as próprias mãos, creditando às entidades divinas quando (depois de uns 12) dá certo de plantar coisas e culpando a si mesmo quando todos os barcos nos quais entra afundam, encontra uns canibais, mantém umas trinta casas na ilha (chamadas de 'meu castelo', 'meu esconderijo', 'minha caverna', cada lugar tinha um apelido, era de morrer de rir), a pólvora jamais termina, o rum também não, por sorte dele...
acordado ainda? sorte sua. Eu lutei bastante.
enfim, depois desses cento e dez anos (isso porque ele tinha pouca tinta e  'só escreveu coisas relevantes'), o grupo de canibais que ele sabia que às vezes visitava a ilha traz mais prisioneiros, mas dessa vez ele resolve salvar um pra se tornar escravo dele, porque ele vinha pensando nisso. Sim, é isso aí. Isso, minha gente, é 70% do kindle. Você está morrendo de sede na frente do mar. Chega então o selvagem chamado de Sexta-feira. Sujeito boa gente. Robinson o ensina a não comer os amiguinhos, a louvar Deus como a Bíblia ensina, a plantar e a usar a arma.
E aí subitamente a ilha deve ter entrado no google maps, no waze, os marcianos ouviram os tiros... porque a partir daí é um entra e sai de personagem que você, acostumada a ler só a voz do Robinson Soninho, fica bem confusa. Até porque há várias lutas de espada e mosquete e espingarda e sei lá mais o que, então não se sabe que mocinho ficará até a próxima página.
Então, resumindo: moço mimado, monólogo das suas tentativas de sobrevivência por 24 anos e 70% do livro, aparece personagem secundário, seguido pela porta dos fundos de mais meia dúzia deles nos próximos três anos, que acontecem em tipo três páginas.
Robinson então resolve voltar pra terra dele e ver em que pé está sua vida pregressa.E veja só, parece que sua má sorte só acontece nos barcos, porque fora deles, seus amigos, embora ele tenha sumido por 28 anos, não só guardaram seu dinheiro, como investiram, estão dispostos a reconhece-lo e devolver seu investimento e não lhe dão problema algum. Sua família morreu em sua maioria, e também não o roubou, não discute a herança, nadinha. Ou seja, ele é rico na terra dele.
E o sujeito fica lá? nãaaao! Ele se casa (juro por deus que isso aconteceu em um parágrafo. Não tenho ideia de onde veio a mulher, nem o que ela viu nele, porque eu correria na direção oposta até ele virar um ponto) e quer ficar indo visitar a ilha que ele 'populou'. Megalomania? Falta do que fazer? Insanidade? Todas as anteriores?
Vou dizer o que eu disse no goodreads: Só sei que, se eu fosse pruma ilha deserta, esse seria o último livro que eu levaria.


domingo, 20 de março de 2016

A Letícia lê - ainda beeem devagar

Eu só li dois livros inteiros nessa semana. Em minha defesa, é porque finalmente começamos a planejar as férias.
Bom, na verdade as férias acontecerão em dois meses e meio, mas quem me conhece sabe que na minha cabeça elas só tomam forma quando tá tudo num calendário, com pastinha, guias numa pilha e só a diversão de pensar em como será que fala por favor na língua x. Então, essa é a parte doce e amarga. Contarei quando estiver pronta, falta um pedaço de hospedagem que está me tirando do sério.

Enfim, voltando aos livros: li Observatório de sinais, do Dario Caldas. Ele é da consultoria homônima, e do curso idem (eles realmente gostam desse nome), e parecia tudo muito legal. Aí fui ler o livro, e pra falar a verdade gostei muito pouco. Achei meio escrito com cara de tese de mestrado no primeiro rascunho, com frases meio durinhas, sabe? (quem sou eu, que fugi do mestrado sem olhar pra trás. Mas me senti assim, me processe). E achei que se falaria de tendências de tudo, e me via toda hora lendo sobre moda. E não a parte legal de moda, de menininha, ou do Diabo veste Prada :P. Mas a histórica e chatinha. Notou que eu não amei? Foram só duas estrelinhas no goodreads, que foi pro instagram As pequenas e grandes alegrias :)





Aí fui ler A letra escarlate, do Nathaniel Hawthorne. Pensando, aí não tem erro, né? Um´clássico é um clássico. O Hawthorne achou que ia arrasar com esse aí, aliás. Gente, não deu. Achei todos os personagens caricatos, achei A Grande Revelação uma coisa de novela mexicana, óbvia e tonta, achei as coisas sem explicação, achei os sentimentos esquisitos, e se ele falasse mais uma vez que a menina fada tinha um sorriso quase demoníaco talvez eu atirasse o livro em algum lugar.

Aí voltei pro Airbnb.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

A Letícia lê - em ritmo de aniversário

Pois aí eu li um livro que não sabia que existia... desculpe minha ignorância, mas eu realmente esbarrei nele quase sem querer. Baixei gratuitamente no kindle, descobri que foi escrito em 1794, uma década e meia antes de Razão e sensibilidade, e não sei a razão de ele ser tão distinto em termos da heroína, mas foi muito curioso lê-lo: se chama Lady Susan, e é de ninguém menos que Miss Austen.
A questão é que a protagonista, Lady Susan, que dá nome ao livro, é uma heroína muito da sem vergonha; uma viúva que é alguém surpreendente de se ter saído da 'pena' da jovem Jane Austen. Só quer se casar com quem lhe der mais vantagem, busca pretendentes ricos, mesmo que mais jovens, praticamente tranca a filha adolescente no sótão para que isso aconteça, tem um romance com um homem casado, é tipo vilã de novela. O romance todo, curtinho, é narrado através de cartas, ora das mulheres no entorno (a filha dela, a cunhada, uma amiga) ora dela. Foi superinteressante ler isso. Não é romântico, mas não deixou nem um pouco de ser interessante.

A outra coisa que eu li nessa última semana foi Curvas perigosas, o segundo volume de quadrinhos da Maitena, que eu adoro. Ganhei de aniversário, e é uma dessas coisas que recomendo que você leia, compre, dê de presente: diversão garantida para mulheres adultas a partir dos 20 anos de idade. a gente se identifica de cara. Delicioso.

E agora, estou escolhendo dentre opções diversas quem será meu novo horizonte literário da semana. Foi um mês difícil, mas acho que é preciso olhar pra frente e desejar, né?


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Letícia lê - livros lidos nessa semana


Antes tarde do que sempre - Bernaldo Gontijo
Só Deus sabe o que esse livro estava fazendo no meu kindle. Não sei nada sobre ele ou sobre o autor, e pra não gastar meu tempo, resolvi não buscar. O livro soou por bastante tempo (as primeiras 100 páginas, acho) como literatura infantojuvenil (ruim), tanto que comecei a me lembrar desses títulos desse gênero dos quais eu gosto, para reler. Daí a parte 'adulta', de bebida, maconha e sexo começou a ficar mais e mais frequente, então deixou de fazer parte desse gênero. Mas a maturidade emocional do protagonista permaneceu nessa faixa etária, e não do jeito fofo e simpático. Tédio com um T bem grande pra vc.

Go set a watchman - Harper Lee
Puxa vida. Tanto a se dizer aqui. Eu fiquei superansiosa por esse livro, claro, porque gosto bastante do primeiro, e porque a voz da Scout era tão gostosa e agradável.
Então, por partes: as primeiras 150 paginas, mais ou menos, permanecem com reminiscências da Jean Louise, que agora vem visitar o pai, já um pouco velhinho e com artrite reumatóide, morando com a tia Alexandra. Ela tem sentimentos dicotômicos sobre Maycombe: metade de si acha que enquanto NY é livre e interessante, Maycombe é, de fato, o "mundo real". Outra metade acredita que jamais conseguiria viver ali.
Não posso falar muito sem dar spoilers sobre o que mudou na vida dela, então fico por aqui. Também nem acho que importa muito para o cerne da história.
Enfim, em algum momento, ela descobre que o pai está no Conselho da cidade, vai até lá, e ouve todo mundo falando sobre como os negros são seres inferiores; fica absolutamente enfurecida porque o pai está lá sem se revoltar, ou seja, ouvindo tudo aquilo e 'aquiescendo', e tem um ataque adolescente. Claro que a gente entende a dificuldade de ver os pais envelhecerem. Eu me identifiquei muito com essa frase: She always thought of him as hovering somewhere in his middle fifties - she could not remember him being any younger, and he seemed to grow no older. Mais ou menos: Ela sempre pensou nele como pairando em algum lugar dos cinquenta e poucos anos - ela não se lembrava dele ser mais jovem que isso, e ele não parecia envelhecer mais do que essa idade. É assim que eu penso no meu pai, e ele já tem 79. Mas eu procuro evitar fingir ter 12 anos. Tipo, sai pisando duro, faz a mala, xinga a tia. Se você não sabe que ela tem 26 anos, jura por Deus que ela tem 16. Electra, a equivalente ao complexo de Édipo, vive, né...
Não vou entrar no mérito do preconceito. É um tema sem dúvida muito complexo, e profundamente interessante, do ponto de vista histórico e humano. E, claro, tenho opiniões. Acima de tudo, tenho crenças e valores. E, como a Scout (e como Atticus), sou regida por eles.
Então, vou focar na minha opinião sobre O LIVRO: entendo perfeitamente o editor (muito esperto) que disse pra Ms. Lee tantos anos atrás: olha, legal e tal, mas acho que se você aumentar esse ângulo aqui e falar mais sobre a infância da Scout, isso aqui tem grandes chances. Esse volume, do jeito que está, tem partes legais, do tipo 'quero saber mais', e outras 'ah, eu fico desse lado'. Que tal? E entendo a Ms. Lee que foi esperta o suficiente para acatar o conselho e escrever um livro tão interessante como O sol é para todos, que afinal virou um ícone.
Porque, em termos de livro, esse é, perdoe meu francês, simplesmente mais chato que o outro. É tipo, substitua a parte nobre (igualdade e justiça sendo a razão do chilique) e o chilique da Scout é intragável. Ela, em muitos jeitos, é só bastante mimada, do jeito dela. E a gente gostava MUITO da Scout, né. Ela era a criança mais esperta, mais interessante, mais rica de emoções. Isso aqui fica decepcionante.
Você pode até dizer que afinal, essa parte nobre é o cerne da história, do livro, do sucesso. Mas aí, minha gente, se é... então foi mal trabalhado. Porque nem aparece por 150 páginas, aparece como razão do chilique, e some de novo, deixa eu contar. Sou mais fã do Uncle Jack, pra falar a verdade, mas não há um grand finale tão lindo como o episódio do livro anterior, então aí a gente fica com outro problema, né...
Enfim. No goodreads, isso aqui virou três estrelas. Duas delas foram ganhas na história da Scout achando que estava grávida aos 11 anos. Impagável. Vou dizer que valeria ler o livro só por isso. Me processe.

Atticus Finch. "You never really understand a person until you consider things from his point of view." To Kill a Mocking Bird. #MauraDawg
Você nunca entende realmente uma pessoa até que você considere as coisas sob o ponto de vista deles. (Atticus Finch, O sol é para todos)


The tennis party - Madeleine Wickham
Basicamente, o sujeito é um vendedor de investimentos, casado e com uma filha, de quem tem muito orgulho, e decide dar uma festa, em torno da quadra de tênis (festa de ricos, né, minha gente), com mais seis pessoas: um cliente viúvo e sua filha, um casal de amigos ricos para quem quer fazer uma venda e um casal de amigos pobres-acadêmicos.
A história é construída de um modo que, embora eu não saiba explicar a razão, soa como uma peça teatral. Quase consigo ver as entradas e saídas de cena. É densa, e forte, e profunda. E eu tenho de dizer que talvez, se a capa não houvesse sido feita em tons de azul e rosa bebê e com o nome da Madeleine (Sophie Kinsella), eu talvez houvesse gostado mais; expectativa é uma droga, né. Como, por causa desses fatos, eu esperava algo leve e fofinho, não gostei tanto. Como quando a gente vê a Jennifer Anniston, de Friends, fazendo um filme dramático, sabe? Até você se acostumar, perdeu metade da história.
Enfim, você, que já sabe sobre o que é a história, fique sabendo que é bem escrita, bem desenvolvida e interessante. Talvez goste mais do que eu.

The one that got away - Simon Wood
misteriozinho, acho que peguei de graça. Um serial killer que resolve ir atrás da única vítima que escapou, Zoe Sutton, e a perspectiva dela, cheia de culpa porque ela deixou a amiga para trás quando fugiu dele, mais de um ano atrás. Melhor do que a média, o que não anda querendo dizer muito.

Cadê você, Bernadette?, Where'd you go, Bernadette - Maria Semple


Que decepção! eu queria tanto ter gostado desse livro. Pra começo de conversa, é um desses que eu 'namorava' há um tempão. Depois, tem essa capa fofinha. Finalmente, é epistolar! tudo pra dar certo. #sqn. Um bando de personagens chatíssimos, sem noção, que não se conversam, (literal e figurativamente), pontos de vista se alternando entre eles sem conexão... puxa, detestei. Leia por conta e risco.

The viking, Marti Talbott - Marido está viciado em tudoviking. Séries, filmes, toy figures. ou seja, assisti à série (yummy), vi o filme A saga viking (meh), e aí fui ler esse livrinho. Só que, depois de tanta machadada e lutas por honra e terras na telinha, esse livro é um menino que sobrevive a uma invasão viking que deu errado na Escócia, e ele é tipo fofo, sabe... quase uma história de amor, o que é estranho. Bom, não estranho. Mas, em algum momento, a gente pensa, tá, por que então chamá-lo de viking? podia ser um náufrago, um órfão, um primo da pessoa... porque olha, de viking ele não tá tendo nada não, viu...

You, CAroline Kepnes - Esse livro foi eleito (por alguém, já me esqueci) o melhor suspense lançado em 2014. Fiquei curiosa, me processe. Fui ler. O moço trabalha numa livraria, flerta com a cliente, pega os dados dela no cartão de crédito, joga no google/facebook/twitter, e em dez minutos está na porta da casa dela vigiando. Arrepiou? Credo, né?
Só que é essa a extensão do livro. A gente arrepia de nojo e aversão desse tipo de atuação, e quando ele começa a soar ainda mais maluco e perseguidor e 'esbarrar' nela e vigiar as amigas e monitorar os e-mails e afins, acho que se fosse um filme e fosse bem feito, podia ser bem legal. No livro, não achei que a autora conseguiu. O sujeito é claramente um psicopata, mas ele só é assustador porque é tão 'preto e branco', sabe? ele realmente acha que a ama, e tudo que faz é pensando nisso, bem obcecado. Mas além de eu pensar, bom, vou checar minhas configurações de privacidade na mídia social e rezar pra não cruzar com gente maluca, semana que vem já esqueci do livro.

#Falsiane, Lucy Skyes - Gente, esse título é tudo, né? Pena que não foi tão bem desenvolvido assim, porque podia. A história é: editora de moda chique, linda, clássica, respeitada, tirou 6 meses de licença, pra tratar um câncer de mama. Quando volta, a ex assistente, periguete (a Falsiane), vendeu a ideia de transformar sua revista em uma publicação só digital, e está quase no seu lugar. Ótimo, né? E seria, eu acho, com uma única mudança: não deixar a Imogen (a editora) parecer uma completa imbecil, que ficou numa caverna por 25 anos, e não por 6 meses, e tem 68 anos de vida rural, não 42 urbanos - porque é assim que ela soa quando demonstra a ignorância absoluta sobre qualquer meio de social mídia, seja facebook, twitter, pinterest, ou algo que podia ser de fato mais complexo, tipo programação ou taxa de conversão de clientes. Isso me incomodou tanto que estragou o livro, que de outro modo, seria bem divertidinho.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Jane Eyre - clássico do momento - timely classic

Olha só que coisa. Mais um desses livros que provavelmente eu li em algum momento, mas tinha ZERO lembrança. E ele começa difícil, né? menina chata, dramática, muito malquista pela família, órfã, parece que você já leu a história.
E então... puxa, sabe que eu gostei?
Jane Eyre tinha sido deixada com um tio, que fez o favor de morrer e a deixou com Mrs. Reeds, a tia mais insuportável, e os primos horríveis, John e Georgiana, que se tornam delinquente/suicida e dama fútil da corte mais tarde. Em algum momento, essa tia envia Jane a uma escola longe, querendo se livrar dela de algum modo, não sem antes 'queimar o filme' da pobre loucamente.
Jane vai à escola, blá blá blá, e olha só, se dá bem, é espertinha, e decide se aventurar pelo mundo como tutora. Vai parar em uma casa chamada Thornfield, como tutora de uma menina chamada Adele.
Num dia, passeando pelo campo, quase socorre um cavaleiro, que olha só!, é Edward Rochester, o herdeiro da casa e guardião de Adele. Ele conversa com ela e a ignora, alternadamente, pergunta se ele é bonito - e ela diz que não, numa das melhores cenas do livro - 

I seriously laugh so hard at this part whether I am reading the book or watching one of the movies.:
em algum momento ele traz uns amigos pra casa, se engraça com uma moça bem mal educada chamada Blanche, finge que vai casar com ela só pra depois dizer "pegadinha do Malandro" e pedir Jane em casamento...
as empregadas da casa desconfiam loucamente da história, porque como assim Mr. Rochester vai se casar com a tutora feiosinha e sem graça e sem herança ou propriedades?. E aparentemente rogam praga, porque no dia do casamento... (Silvia, para de ler aqui e vá ler o livro, é fofo!). Vou fazer um parágrafo aleatório pra distrair aqui:

Jane é muito honesta, muito sofridinha e escrupulosa, e, algo que é bem legal: não é bonita. Muitas vezes isso é dito no livro. Muitas, judiação. Chega uma hora que você quase quer dizer, tá, já entendi, não precisa esfregar na cara da pobre.

revelação continuando: um amigo que havia aparecido na casa do Mr. Rochester anteriormente e sido 'atacado' misteriosamente revela que a 'coisa' que o atacou era, na verdade, sua irmã, que é, tchan tchan tchan tchan, esposa do Mr. Rochester! e louca de pedra (não no sentido figurado: no literal mesmo. Ataca as pessoas, precisa de uma enfermeira, etc etc). Essa pessoa, chamada Bertha, está trancada no sótão há anos, e mesmo depois de um discurso emocionado e lindo de Mr. Rochester, Jane foge, vivendo dias de quase mendicância, porque não será 'a outra'.
Passa-se quase um ano... e, bem no estilo novela do SBT, a família que acolheu Jane na verdade tem laços com sua própria família, descobre que ela ganhou uma herança e agora é rica (estou pulando uns detalhes, pra vc querer ler), e ela volta a Thornfield após escutar uma voz misteriosa uma noite a chamando. Descobre que a casa foi arruinada por um incêndio causado pela louca de pedra, no qual ela morreu, e o viúvo, Mr. Rochester, ficou cego e aleijado. 
Você acha que acabou? Não. Ela vai visitá-lo, ele, claro, ainda a ama, a pede em casamento de novo, a outra frase fofa do livro "Reader, I married him" (Leitor, eu me casei com ele) aparece, e bom,  é mais ou menos isso.






Minhas citações favoritas do livro:


I am unhappy,—very unhappy, for other things.” “What other things?  Can you tell me some of them?” How much I wished to reply fully to this question!  How difficult it was to frame any answer!  Children can feel, but they cannot analyse their feelings; and if the analysis is partially effected in thought, they know not how to express the result of the process in words.  Fearful, however, of losing this first and only opportunity of relieving my grief by imparting it, I, after a disturbed pause, contrived to frame a meagre, though, as far as it went, true response.

Missis was, she dared say, glad enough to get rid of such a tiresome, ill-conditioned child, who always looked as if she were watching everybody, and scheming plots underhand.”  Abbot, I think, gave me credit for being a sort of infantine Guy Fawkes.

Presentiments are strange things! and so are sympathies; and so are signs; and the three combined make one mystery to which humanity has not yet found the key.  I never laughed at presentiments in my life, because I have had strange ones of my own.  Sympathies, I believe, exist (for instance, between far-distant, long-absent, wholly estranged relatives asserting, notwithstanding their alienation, the unity of the source to which each traces his origin) whose workings baffle mortal comprehension.  And signs, for aught we know, may be but the sympathies of Nature with man.

is one of my faults, that though my tongue is sometimes prompt enough at an answer, there are times when it sadly fails me in framing an excuse; and always the lapse occurs at some crisis, when a facile word or plausible pretext is specially wanted to get me out of painful embarrassment. 

Are you anything akin to me, do you think, Jane?” I could risk no sort of answer by this time: my heart was still. “Because,” he said, “I sometimes have a queer feeling with regard to you—especially when you are near me, as now: it is as if I had a string somewhere under my left ribs, tightly and inextricably knotted to a similar string situated in the corresponding quarter of your little frame.  And if that boisterous Channel, and two hundred miles or so of land come broad between us, I am afraid that cord of communion will be snapt; and then I’ve a nervous notion I should take to bleeding inwardly.  As for you,—you’d forget me.” “That I never should, sir: you know—”  Impossible to proceed.” 

“Jane, be still; don’t struggle so, like a wild frantic bird that is rending its own plumage in its desperation.” “I am no bird; and no net ensnares me; I am a free human being with an independent will, which I now exert to leave you.” Another effort set me at liberty, and I stood erect before him. “And your will shall decide your destiny,” he said: “I offer you my hand, my heart, and a share of all my possessions.” “You play a farce, which I merely laugh at.”
“that will be your married look, I, as a Christian, will soon give up the notion of consorting with a mere sprite or salamander.  But what had you to ask, thing,—out with it?” “There, you are less than civil now; and I like rudeness a great deal better than flattery.  I had rather be a thing than an angel.  This is what I have to ask,—Why did you take such pains to make me believe you wished to marry Miss Ingram?” “Is that all?  Thank God it is no worse!”  And now he unknit his black brows; looked down, smiling at me, and stroked my hair, as if well pleased at seeing a danger averted.  “I think I may confess,” he continued, “even although I should make you a little indignant, Jane—and I have seen what a fire-spirit you can be when you are indignant.  You glowed in the cool moonlight last night, when you mutinied against fate, and claimed your rank as my equal.  Janet, by-the-bye, it was you who made me the offer.” 
“It can never be, sir; it does not sound likely.  Human beings never enjoy complete happiness in this world.  I was not born for a different destiny to the rest of my species: to imagine such a lot befalling me is a fairy tale—a day-dream.

“He means to marry you?” “He tells me so.” She surveyed my whole person: in her eyes I read that they had there found no charm powerful enough to solve the enigma.” 

“you were mad, do you think I should hate you?” “I do indeed, sir.” “Then you are mistaken, and you know nothing about me, and nothing about the sort of love of which I am capable.  Every atom of your flesh is as dear to me as my own: in pain and sickness it would still be dear.  Your mind is my treasure, and if it were broken, it would be my treasure still: if you raved, my arms should confine you, and not a strait waistcoat—your grasp, even in fury, would have a charm for me: if you flew at me as wildly as that woman did this morning, I should receive you in an embrace, at least as fond as it would be restrictive.  I should not shrink from you with disgust as I did from her: in your quiet moments you should have no watcher and no nurse but me; and I could hang over you with untiring tenderness, though you gave me no smile in return; and never weary of gazing into your eyes, though they had no longer a ray of recognition for” 
“You see now how the case stands—do you not?” he continued.  “After a youth and manhood passed half in unutterable misery and half in dreary solitude, I have for the first time found what I can truly love—I have found you.  You are my sympathy—my better self—my good angel.  I am bound to you with a strong attachment.  I think you good, gifted, lovely: a fervent, a solemn passion is conceived in my heart; it leans to you, draws you to my centre and spring of life, wraps my existence about you, and, kindling in pure, powerful flame, fuses you and me in one.” 

“What can you mean?  It may be of no moment to you; you have sisters and don’t care for a cousin; but I had nobody; and now three relations,—or two, if you don’t choose to be counted,—are born into my world full-grown.  I say again, I am glad!

“And where is the speaker?  Is it only a voice?  Oh!  I cannot see, but I must feel, or my heart will stop and my brain burst.  Whatever—whoever you are—be perceptible to the touch or I cannot live!” 
“My living darling!  These are certainly her limbs, and these her features; but I cannot be so blest, after all my misery.  It is a dream; such dreams as I have had at night when I have clasped her once more to my heart, as I do now; and kissed her, as thus—and felt that she loved me, and trusted that she would not leave me.”
“Oh, you are indeed there, my skylark!  Come to me.  You are not gone: not vanished?  I heard one of your kind an hour ago, singing high over the wood: but its song had no music for me, any more than the rising sun had rays.  All the melody on earth is concentrated in my Jane’s tongue to my ear (I am glad it is not naturally a silent one): all the sunshine I can feel is in her presence.” 

“recurred in this narrative, and I have done. I have now been married ten years.  I know what it is to live entirely for and with what I love best on earth.  I hold myself supremely blest—blest beyond what language can express; because I am my husband’s life as fully as he is mine. ” 

friends jane eyre gif - Google Search:

domingo, 20 de setembro de 2015

A Leticia lê - livros lidos nessa semana + timely classic - clássico do momento

Essa semana foi a do:

Queria mais é que chovesse - Pedro Mexia
crônicas sempre me atraem. Essa edição é linda, e me chamou com os olhos. Mas de verdade, foi um daqueles casos que o primeiro encontro seria o único. A conversa não se sustentou, sabe? chatice.

Brave new world - Aldous Huxley
Fiquei olhando pra estante e decidi reler livros que estavam lá e dos quais eu só lembrava vagamente; daí saíram várias escolhas dessa semana. Parabéns pra mim! Admirável mundo novo foi um deles. É um livro distópico da época na qual esse gênero era completamente desconhecido dos milhões de jovens que hoje leem Divergente, Jogos vorazes e afins. (dos jovens e de mim, no caso, que adoro, tá?)
O livro começa com a descrição de umas pessoas visitando um centro no qual um processo chamado Bokanovsky é explicado: um embrião é transformado em milhares, 'produzindo' seres humanos perfeitos de uma vez e sem a complicação de conceitos alienígenas como 'família', 'pais', 'sexo'. A ideia é que todos os seres produzidos sejam plenamente felizes, com as tarefas que recebem - afinal, as sociedades são sim divididas em castas, 'como tem de ser' - e desde cedo, frases como 'eu odiaria ser do grupo X', ou 'usar a cor Y' - que pertence ao outro grupo - são inculcadas na mente das pessoas. Sete mil repetições fazem uma verdade, algo assim. A ideia é que todo mundo viva uma vida de prazeres simples, controlados, e sejam felizes - na medida da felicidade do governo.
Existem, claro, alguns personagens que saem um pouco dessa padronização. Bem pouco. Bernard Marx é um deles. (uma ligeira sátira aqui com esse nome) Em algum momento, ele se envolve com uma outra moça, Lenina, mas rapidamente se desaponta porque ela na verdade gosta da droga (soma) que toma e que faz com que tudo fique bem e rapidamente tranquilo, e não quer sentir coisas intensamente como ele.
Eles pregam Comunidade, Identidade, Estabilidade. Logo um outro personagem, John Savage, é inserido no contexto; ele vivia numa 'reserva', quase como o que seriam nossos 'índios', e ao contrário dos outros, sofre quando perde a mãe, já conheceu dor, não entende esse universo. Ele lê Shakespeare (Marx também o havia feito, aparentemente é como as pessoas aprendem a sentir por ali...ah, literatura... ) e diz a frase mais citada do livro: But I don't want comfort. I want God. I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin. I'm claiming the right to be unhappy. Not to mention the right to grow old and ugly and impotent; the right to have syphilis and cancer; the right to have too little to eat; the right to be lousy; the right to live in constant apprehension of what may happen tomorrow; the right to catch typhoid; the right to be tortured by unspeakable pains of every kind. I claim them all. 
Mais ou menos: Mas eu não quero conforto. Eu quero Deus. Eu quero poesia. Eu quero perigo real, quero liberdade, quero bondade. Quero pecado. Estou reinvindicando o direito de ser infeliz. Sem falar do direito de envelhecer e ficar feio e impotente; de ter sífilis e câncer; de ter pouco para ocmer; de ser incompetente; de viver em constante medo do que pode acontecer amanhã; de pegar febre tifóide; de ser torturado por dores de todos os tipos. Eu quero tudo isso.
Vou dizer duas coisas: a ideia é obviamente original (foi publicado em 1932) e assustadoramente conectada com tanta coisa que vivemos hoje. Nossa necessidade de prazeres imediatos, de drogas que nos deem alívio, de grupos que nos aceitem e façam tudo igual, usando 'as mesmas cores'. A gente acha que é menos tribal, mas não é. 
Mas acho que Mr Huxley não é o melhor contador de histórias do mundo. Sabe, houve diversos momentos nos quais eu não pude evitar pensar... tá, tá, e? - coisa que jamais acontece quando a narrativa é fluida como pode ser. Claro, isso é totalmente uma opinião individual. Mas, bom, sou eu que estou escrevendo, né? Me conta se pra vc foi diferente.
16 Witty Sherlock Comebacks to Knock Out Your Enemies:  

A cidadela - AJ Cronin 
Esse é um livro que eu li há vinte anos, e tem aquele sentimento de novela: não tem nenhuma cena politicamente incorreta - mesmo quando se descreve uma cirurgia, a linguagem é mansa, sutil, bem anos 70 - agora pensando bem, creio que isso também tem a ver com a tradução que eu tenho, que é dessa época. Mas o livro foi publicado em 1937, então de verdade, há uma certa política envolvida.
De qualquer modo, narra a vida do dr. Andrew Manson, desde o momento após sua graduação, a duras penas e só realizada com um empréstimo, seu início de carreira como médico assistente e completamente explorado e seu idealismo.
Existe um contexto histórico aí: não havia um único sistema de saúde em Wales, ou na Inglaterra (hoje existe algo chamado NHS, que mal ou bem, uniformiza os procedimentos). Dr. Manson começou trabalhando supostamente como assistente para o Dr. Page, embora esse estivesse inválido, e, talvez retratando alguma experiência do autor, que também era médico, se chocou com a prática do lucro dos profissionais, dos pacientes que só vinham atrás de atestados médicos ou de remédios, e - num diálogo que me pareceu absolutamente real - de médicos que não ouviam seus pacientes, simplesmente a primeira frase "ah, você tem fraqueza: é anemia, tome essa pílula" em vez de buscar o diagnóstico como um todo.
À medida que ele cresce profissionalmente, tem aí um lado meio Keanu Reeves naquele filme Advogado do diabo - lembra-se, o profissional idealista que é corrompido pela ambição e larga a mulher para ir atrás das luzes da cidade grande, que lhe parecem agora tão fantásticas? A relação do doutor Manson com a esposa, a Christine, que o apoiava de forma quase irritantemente incondicional, desde que ele fosse fiel a si mesmo, me lembrou muito essa.

Enfim, ele passa por várias cidades, vários momentos, relações diferentes com pacientes, com colegas de profissão e com essa esposa, que o 'truca' às vezes "esse não era aquele remédio que na verdade não faz nenhum tipo de efeito? por que você o está receitando?", irritando-o loucamente, porque,né, a verdade dói.
E aí, você quer saber se ele vira um ser humano horrível e mais um dos médicos do grupo medonho? em homenagem à Silvia, que tem ódio de spoilers, eu não vou contar. Você veja que pra mim, como sempre, tanto faz: acho que o que gosto da história é a história e a maneira como é contada.
PS: Eu li esse livro na sequência do Admirável mundo novo. Tão diferente! Li numa sentada, com deleite.
Minha edição:
A Cidadela


Jane Eyre, Charlotte Brontë: lendo. conto semana que vem.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Letícia lê - semana 28 - os livros fora da caixa (do Kindle Unlimited)

Olivia Joules e a imaginação hiperativa, Helen Fielding
A autora do Bridget Jones aqui faz algo que eu não sabia que ela sabia fazer: mistura cenas bem cruas e sanguinolentas com sua heroína de literatura cor de rosa. Foi interessante ler um livro 'chick lit' com essa pegada de crime e mistério. Confuso, mas interessante :P

Finding Audrey, Sophie Kinsella
Já falei o quanto eu amo essa mulher? Audrey é uma adolescente com um transtorno, que não está conseguindo olhar as pessoas nos olhos, nem sair de casa, por conta de algo que ocorreu no colégio. Ela não faz nada muito profundo, é verdade, no sentido de explorar o distúrbio - embora haja um momento muito tenso no qual Audrey para de tomar o remédio e você começa a 'falar' com ela no livro, "Não faça isso, não dá pra perceber que não vai dar certo?" - mas é leve e ao mesmo tempo muito triste. O que se chama bittersweet em inglês, a coisa agridoce mesmo. Sei que vou reler o livro, e mais uma vez tiro o chapéu pra moça que escreveu Shopaholic e agora foi pro terreno de literatura infantojuvenil sem perder o charme.


The room, Jonas Karlsson
Esse livro foi um mistério do começo ao fim. Escrito por um ator sueco, e sendo sua primeira obra, poderia ir para qualquer lado, né? Supostamente, foi escrito como uma paródia aos escritórios do mundo. The Authority, (A Autoridade), para quem Bjorn trabalha, pode ser qualquer multinacional do planeta, o escritório, qualquer escritório. Ele consegue ver uma sala, na qual se acalma, que descobre que ninguém mais pode ver. Logo, os colegas começam a se incomodar com o que parece ser a loucura dele (já que quando ele visita a ‘sala’, para os outros parece que ele está olhando para o nada). Você fica sem saber se a sala existe, se ele está provocando as pessoas com seu plano de crescer na escada corporativa, se ele realmente está perturbado... a tensão crescente é tão boa quanto a reação horrorosa das pessoas que não conseguem lidar com qualquer tipo de diversidade. Me lembrou muito o livro do Orwell, Animal farm, com as regras escritas pelos porcos sobre os animais serem iguais, mas alguns mais iguais do que os outros... de qualquer modo, achei que foi um daqueles livros que se torna mais interessante ainda depois que você o terminou, porque fica com você.

The last anniversary, Liane Moriarty
Eu estava salvando esse livro, porque era o único da Liane Moriarty que eu não tinha lido ainda. Gosto TANTO dela, já disse? Uma das minhas favoritas hoje em dia. Esse livro não é o melhor de todos, mas tem os elementos chave que são típicos dela: uma narrativa fluida, envolvente, cheia de detalhes dos personagens, que ficam ricos e interessantes e cheios de segredos, e quando você acha que descobriu tudo sobre eles, percebe que ela é boa mesmo porque ela faz algo que te diz “há, te peguei, nem era isso!”. A história? Basicamente, uma mocinha descobre que é a herdeira de uma casa numa ilha. Quem a deixou para ela foi a tia do ex namorado, que por sua vez tinha todo um segredo envolvendo um bebê encontrado e que era o cerne turístico da ilha. Maluco, né? E você não viu da missa a metade... Fora que ela é engraçada! Olha só:
“Não preste atenção nela’, diz Enigma. ‘Geralmente eu canto na minha cabeça até que ela termine de falar”.

How to build a girl, Caitlin Moran
Humorista, mas de fato, pouco humor.

O silêncio das montanhas, Khaled Hosseini
Esse me ensinou a ser, de novo, menos intolerante e crítica com os best-sellers. Pari e Abdullah são dois irmãos que são separados quando crianças, e a história conta suas vidas e de quem estava envolvido nelas até o fim. O foco narrativo me deixou bem confusa várias vezes, porque muda por capítulo e demora um pouco para se entender quem agora está falando, mas é delicado e sutil e doce.

The lost daughter, Elena Ferrante
Queria muito ter gostado desse livro, porque essa é uma autora que estava na minha lista havia meses – uma pessoa supostamente italiana, de quem ninguém sabe nada, pporque é um pseudônimo e as entrevistas, feitas por e-mail, dizem que tudo que se precisa saber sobre ela ‘é dito nos livros’. E de fato, nota-se que há um movimento de esforço de ser profundo e doído no livro. A narradora tem muitos conflitos latentes, que aparecem quando vai à praia passar uma temporada e começa a se lembrar de outro período da sua vida, quando suas filhas eram crianças e ela as abandonou por algum tempo. Mas de verdade, achei cansativo, chato, repetitivo, denso. Não só emocionalmente denso, mas literariamente cansativo, quero dizer.
 O rei negro, Mark Menozzi
Um autor italiano escreveu sobre Manatasi, um herói negro, que decide ter seu nome gravado na Roda da Fortuna e, para tal, atravessa metade do reino e passa por muitas aventuras. Literatura fantástica com poucos buracos, interessante, com personagens bem desenvolvidos. Infantojuvenil de grande potencial.
De verdade, Sandor Marai
O que dizer sobre esse livro, escrito por um húngaro no decorrer de quatro décadas (o primeiro capítulo escrito em 1941, o último em 1980)? Que coisa incrível! São monólogos, na voz de quatro pessoas: a ex mulher, o ex marido, a suposta pivô da separação e primeiro amor do ex marido e o último amante da suposta pivô da separação/primeiro amor do ex marido. Cada um traz uma série de reflexões, dores e motivações explicadas de modo tão transparente, e ao mesmo tempo tão denso... foi um livro em papel, e ficou com aproximadamente sete mil post-its entre suas páginas, pois havia tantos parágrafos que eu lia e pensava “puxa, que bem colocado! Que lindo! Que insight incrível! Que ironia bem explicada!” Não é um livro fácil de ler, para ler na praia, como muitos dos anteriores – mas vale o esforço em cada minuto.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Letícia lê - semana 16 - Timely classic - Clássico do momento - Capitães da areia, Jorge Amado

Machado de Assis | Guimarães Rosa | Manoel Bandeira | Jorge Amado

E nesse espírito, resolvi reler Capitães da areia, do Jorge Amado, um dos livros favoritos da minha irmã, que nem adora ler. Eu o li há muitos e muitos anos, nunca vi a série da tv, não tenho referências sobre os personagens. Então criei sozinha a visão de Pedro Bala, do Gato, do Professor, do João Grande, do padre. Sem expectativas.
E descobri momentos muito poeticos:

O Pirulito rezando e causando no Sem Pernas uma inveja: "Ele queria uma coisa imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente e alegre, que o livrasse da necessidade de rir de todos e de rir de tudo. Que o livrasse também daquela angústia, daquela vontade de chorar que o tomava nas noites de inverno. Queria alegria, uma mão que o acarinhasse..."
Eles todos ouvindo a música do carrossel: Nesse momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música.
Quando Dora surge: É uma coisa tão grande demais encontrar na terra uma mãe que já morreu. Dalva não o entenderia.
Depois: Procurava ver, no céu de tanta estrela, uma que tivesse longa e loira cabeleira.

Também me envolvi com a história muito realista do Jorge Amado, que conta tudo como se a gente sentisse o cheiro do trapiche e o ódio pelos policiais e o sentimento sempre presente quando os meninos se mostram vulneráveis.

Não é meu Jorge Amado favorito, nem será, acho. Mas entendo que o grupo quase selvagem de crianças desperte nas pessoas um montão de sentimentos, e eles são muito bem trabalhados pelo autor. Até quando há crueldade absoluta, dá pra saber que não havia outra alternativa no mundo deles.

quarta-feira, 18 de março de 2015

A Letícia lê - semana 11 - Timely classic - Clássico do momento - Um certo capitão Rodrigo, Érico Veríssimo

letrasinversoreverso:    Escritores e gatos     No dia em que faz 35 anos da morte do escritor Erico Verissimo, um raro momento: o escritor trabalhando na confecção de “Incidente de Antares”, em 1970, diante de seu gato de estima Snoopy.

Se a gente começa com essa foto, do Érico Veríssimo escrevendo com seu gato supervisionando, percebe que vai gostar do resto :)

Se na sequência a gente lê a primeira frase desse livro, que faz parte de toda uma série (O tempo e o vento), vê que no final dela já está imaginando o sujeito:

Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, vestia calças de riscado, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, a presilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas,batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
-Buenas e me espalho! nos pequenos dou de prancha, nos grandes dou de talho!

Eu nunca vi as séries de tv, e espero que você também não, porque assim consegue imaginar o seu próprio capitão Rodrigo e não os atores que a Globo escolheu para eles.

Não tenho meias medidas. Sou oito ou oitenta! - diz ele a Juvenal, na primeira conversa com um nativo de Santa Fé.
E em cinco minutos, já está o novo amigo seduzido: "Juvenal acendeu o cigarro, tirou duas tragadas e ficou a observar o forasteiro. Já começava a achar que ele tinha uma cara simpática. Só o jeito de olhar é que não era la muito agradável: havia naqueles olhos muito atrevimento, muita prosápia e assim um ar de superioridade." - "O diabo do homem tinha feitiço".Depois, vai seduzir o padre Lara, que será seu amigo até o fim também: "Padre, é melhor vosmecê ir logo dizendo o que quer. Isso de dar voltas é lá com o rio Ibicuí. Gosto de gente que vai direito ao assunto."

O livro também é engraçado: "Naquele momento seu desejo por Bibiana se confundia com uma sensação de fome e Rodrigo começou a pensar alternadamente na rapariga e num churrasco." E ele explicando o porquê não se rendeu à confissão para o padre quando estava à beira da morte é um deleite.

Não contente, é atual: "Governo é governo e sempre é divertido ser contra".

A paixão de Bibiana é um capítulo à parte, muito bem escrito: "Cuidar da casa, fazer comida para Rodrigo, ... tudo isso eram prazeres que ela gozava duma maneira miudinha, prolongada, bem como fazia no tempo de menina quando lhe davam um pedaço de rapadura e, evitando triturá-lo com os dentes, ela o deixava dissolver-se aos poucos na boca para que o doce durasse mais." - "O vício dela era Rodrigo". A descrição da volta de viagem dele seria quase um capítulo erotizado prum livro que foi escrito em 49 :) E Bibiana, sendo a antítese da mulher de hoje - aceitava as traições dele, esperava-o em casa, era cega de amor - ainda assim entendia Rodrigo "detestava que viessem falar dele com ar fúnebre". E tem orgulho do que viveu e como terminou, o que, dentro da história dela, é grande.

Ou seja, fiquei muito feliz de tê-lo escolhido e lido. Vou procurar alguns outros títulos de clássicos, e no meio deles espero ser digna de encontrar literatura brasileira que 'converse' comigo como o Erico Veríssimo é tão lindamente capaz de fazer com seus leitores.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Machado de Assis, sensacionalmente colocado

Achei isso aqui sensacional e incrível e fantástico. Uma amiga me enviou, não sei bem qual a origem, mas me diga se não é um tapa com luvas de pelica absolutamente maravilhoso:


“Veja abaixo a onírica entrevista realizada pela alta Direção de Migalhas com o escritor Machado de Assis.
Migalhas - Você sabia que até hoje é muito lido ?
Machado de Assis - "O louvor dos mortos é um modo de orar por eles."
Migalhas - Andam dizendo por aqui que seus textos estão ultrapassados.
M.A. - "A morte não envelhece."
Migalhas - De fato, mas afirmam que algumas palavras ficaram no passado.
M.A. - "O passado é um pecúlio para os que já não esperam nada do presente ou do futuro; há ali sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo."
Migalhas - Deixa ver se entendemos. Você quis dizer que...
M.A. - ... "O passado é ainda a melhor parte do presente."
Migalhas - Ok. Mas veja que há uma mulher querendo explicar sua obra para os jovens. Quer, digamos, deixar o texto mais claro. O que você acha disso ?
M.A. - "Nem tudo é claro na vida ou nos livros."
Migalhas - Concordamos. Mas ela vai mexer na linguagem, trocando algumas palavras por sinônimos. Você concorda ?
M.A. - "Em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada."
Migalhas - A questão é que a molecada de hoje não está lendo como antes. Há tantas coisas novas e interessantes a lhes tirar o gosto pela leitura.
M.A. - "É natural da criança preferir os brincos aos labores do estudo."
Migalhas - O resultado é que, de acordo com a indigitada mulher, para os jovens seus livros são de difícil leitura.
M.A. - "O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida."
Migalhas - Mas há adjetivos e substantivos vetustos (ops. "vetustos", pela lógica da mulher, seria proibido).
M.A. - "O adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário."
Migalhas - Então você é contra que outra pessoa explique seus textos ?
M.A. - "Quando a gente lê por olhos estranhos, entende mal as cousas."
Migalhas - Enfim, não devemos explicar nada em sua obra ?
M.A. - "Tudo neste mundo nasce com a sua explicação em si mesmo; a questão é catá-la."
Migalhas - A bem da verdade, essa não é uma iniciativa nova. Já se chegou a cogitar isso.
M.A. - "Há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam."
Migalhas - Mas como agora houve dinheiro arrecado, parece que o livro vai sair.
M.A. - "Meia dúzia de folhas de papel dobradas, encadernadas, e numeradas é um livro."
Migalhas - Pelo visto, Machado de Assis, você está cansado desta ladainha ?
M.A. - "Causa tédio ver como se caluniam os caracteres, como se deturpam as opiniões, como se invertem as ideias, a favor de interesses transitórios e materiais, e da exclusão de toda a opinião que não comunga com a dominante."
Migalhas - O que acha que devemos fazer com o livro desta senhora ?
M.A. - "Os homens, como os livros, têm os seus destinos."
Migalhas - Compreendemos. Finalizando, que resposta você daria para os que chamam sua obra de velha ?
M.A. - "Deus é velho, e é a melhor leitura que há."
· Nota da Redação - Todas as "respostas" foram catadas na obra Migalhas de Machado de Assis, com suas respectivas fontes. (Clique aqui)”.