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domingo, 20 de setembro de 2015

A Leticia lê - livros lidos nessa semana + timely classic - clássico do momento

Essa semana foi a do:

Queria mais é que chovesse - Pedro Mexia
crônicas sempre me atraem. Essa edição é linda, e me chamou com os olhos. Mas de verdade, foi um daqueles casos que o primeiro encontro seria o único. A conversa não se sustentou, sabe? chatice.

Brave new world - Aldous Huxley
Fiquei olhando pra estante e decidi reler livros que estavam lá e dos quais eu só lembrava vagamente; daí saíram várias escolhas dessa semana. Parabéns pra mim! Admirável mundo novo foi um deles. É um livro distópico da época na qual esse gênero era completamente desconhecido dos milhões de jovens que hoje leem Divergente, Jogos vorazes e afins. (dos jovens e de mim, no caso, que adoro, tá?)
O livro começa com a descrição de umas pessoas visitando um centro no qual um processo chamado Bokanovsky é explicado: um embrião é transformado em milhares, 'produzindo' seres humanos perfeitos de uma vez e sem a complicação de conceitos alienígenas como 'família', 'pais', 'sexo'. A ideia é que todos os seres produzidos sejam plenamente felizes, com as tarefas que recebem - afinal, as sociedades são sim divididas em castas, 'como tem de ser' - e desde cedo, frases como 'eu odiaria ser do grupo X', ou 'usar a cor Y' - que pertence ao outro grupo - são inculcadas na mente das pessoas. Sete mil repetições fazem uma verdade, algo assim. A ideia é que todo mundo viva uma vida de prazeres simples, controlados, e sejam felizes - na medida da felicidade do governo.
Existem, claro, alguns personagens que saem um pouco dessa padronização. Bem pouco. Bernard Marx é um deles. (uma ligeira sátira aqui com esse nome) Em algum momento, ele se envolve com uma outra moça, Lenina, mas rapidamente se desaponta porque ela na verdade gosta da droga (soma) que toma e que faz com que tudo fique bem e rapidamente tranquilo, e não quer sentir coisas intensamente como ele.
Eles pregam Comunidade, Identidade, Estabilidade. Logo um outro personagem, John Savage, é inserido no contexto; ele vivia numa 'reserva', quase como o que seriam nossos 'índios', e ao contrário dos outros, sofre quando perde a mãe, já conheceu dor, não entende esse universo. Ele lê Shakespeare (Marx também o havia feito, aparentemente é como as pessoas aprendem a sentir por ali...ah, literatura... ) e diz a frase mais citada do livro: But I don't want comfort. I want God. I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin. I'm claiming the right to be unhappy. Not to mention the right to grow old and ugly and impotent; the right to have syphilis and cancer; the right to have too little to eat; the right to be lousy; the right to live in constant apprehension of what may happen tomorrow; the right to catch typhoid; the right to be tortured by unspeakable pains of every kind. I claim them all. 
Mais ou menos: Mas eu não quero conforto. Eu quero Deus. Eu quero poesia. Eu quero perigo real, quero liberdade, quero bondade. Quero pecado. Estou reinvindicando o direito de ser infeliz. Sem falar do direito de envelhecer e ficar feio e impotente; de ter sífilis e câncer; de ter pouco para ocmer; de ser incompetente; de viver em constante medo do que pode acontecer amanhã; de pegar febre tifóide; de ser torturado por dores de todos os tipos. Eu quero tudo isso.
Vou dizer duas coisas: a ideia é obviamente original (foi publicado em 1932) e assustadoramente conectada com tanta coisa que vivemos hoje. Nossa necessidade de prazeres imediatos, de drogas que nos deem alívio, de grupos que nos aceitem e façam tudo igual, usando 'as mesmas cores'. A gente acha que é menos tribal, mas não é. 
Mas acho que Mr Huxley não é o melhor contador de histórias do mundo. Sabe, houve diversos momentos nos quais eu não pude evitar pensar... tá, tá, e? - coisa que jamais acontece quando a narrativa é fluida como pode ser. Claro, isso é totalmente uma opinião individual. Mas, bom, sou eu que estou escrevendo, né? Me conta se pra vc foi diferente.
16 Witty Sherlock Comebacks to Knock Out Your Enemies:  

A cidadela - AJ Cronin 
Esse é um livro que eu li há vinte anos, e tem aquele sentimento de novela: não tem nenhuma cena politicamente incorreta - mesmo quando se descreve uma cirurgia, a linguagem é mansa, sutil, bem anos 70 - agora pensando bem, creio que isso também tem a ver com a tradução que eu tenho, que é dessa época. Mas o livro foi publicado em 1937, então de verdade, há uma certa política envolvida.
De qualquer modo, narra a vida do dr. Andrew Manson, desde o momento após sua graduação, a duras penas e só realizada com um empréstimo, seu início de carreira como médico assistente e completamente explorado e seu idealismo.
Existe um contexto histórico aí: não havia um único sistema de saúde em Wales, ou na Inglaterra (hoje existe algo chamado NHS, que mal ou bem, uniformiza os procedimentos). Dr. Manson começou trabalhando supostamente como assistente para o Dr. Page, embora esse estivesse inválido, e, talvez retratando alguma experiência do autor, que também era médico, se chocou com a prática do lucro dos profissionais, dos pacientes que só vinham atrás de atestados médicos ou de remédios, e - num diálogo que me pareceu absolutamente real - de médicos que não ouviam seus pacientes, simplesmente a primeira frase "ah, você tem fraqueza: é anemia, tome essa pílula" em vez de buscar o diagnóstico como um todo.
À medida que ele cresce profissionalmente, tem aí um lado meio Keanu Reeves naquele filme Advogado do diabo - lembra-se, o profissional idealista que é corrompido pela ambição e larga a mulher para ir atrás das luzes da cidade grande, que lhe parecem agora tão fantásticas? A relação do doutor Manson com a esposa, a Christine, que o apoiava de forma quase irritantemente incondicional, desde que ele fosse fiel a si mesmo, me lembrou muito essa.

Enfim, ele passa por várias cidades, vários momentos, relações diferentes com pacientes, com colegas de profissão e com essa esposa, que o 'truca' às vezes "esse não era aquele remédio que na verdade não faz nenhum tipo de efeito? por que você o está receitando?", irritando-o loucamente, porque,né, a verdade dói.
E aí, você quer saber se ele vira um ser humano horrível e mais um dos médicos do grupo medonho? em homenagem à Silvia, que tem ódio de spoilers, eu não vou contar. Você veja que pra mim, como sempre, tanto faz: acho que o que gosto da história é a história e a maneira como é contada.
PS: Eu li esse livro na sequência do Admirável mundo novo. Tão diferente! Li numa sentada, com deleite.
Minha edição:
A Cidadela


Jane Eyre, Charlotte Brontë: lendo. conto semana que vem.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A Letícia lê - livros lidos em agosto. Sim, é uma nova manchete por aqui.

Livros lidos em agosto

Porque eu tenho zero vergonha na cara, e porque acho que é melhor sim tentar consertar que jogar fora, estou ignorando minhas parcas tentativas recentemente de manter esse blog tão organizado como eu prometi e em vez disso contando de modo 'enfia numa cesta' o que eu li em agosto:

Li três livros que não vale a pena mencionar: dois romances unidos, (In too deep e Too far gone, Stella Rhys), um YA (don't forget to breathe, Catharine alguma coisa, chatíssimo) e um não ficção (A killer in the family, Peter Range Ross) que só gastaram uma hora da minha vida. Esse último era pra ser mais interessante - um sujeito um dia pirou e matou a família, fugindo por vinte anos - mas minha nossa senhora, pensa numa coisa sem pé nem cabeça. Não se falou de nada no livro. Nem do crime, nem da fuga, nem da família, nem do criminoso... tipo, eu sei tanto sobre o caso agora quanto eu sabia antes de ler o livro. É pra dizer que foi mal escrito ou não?

Li Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes, do Covey: é um livro que estava na minha lista há tempos, e fazia parte do Kindle Unlimited. Me surpreendeu positivamente, na verdade. Eu esperava um livro de autoajuda ou algo muito voltado à liderança e hábitos vire sua vida do avesso.
Em vez disso, o autor faz questionamentos válidos, realistas, coloca em cheque alguns princípios importantes e de fato faz sentido. Gostei.
Li um PNR (Paranormal romance) chamado Drink of me, da Jacquelyn Frank, que era bem desenvolvido, bem escrito, com cenas quentes e divertidas. Me julgue, se quiser. Aproveita e paga essa conta minha aqui.
Li Jane and Prudence, da Barbara Pym, que embora tivesse resenhas ótimas e supostamente uma conexão (quem não?) com Austen, foi um desperdício de duas horas da minha vida nas quais eu podia: 1. ter feito bolo de chocolate. 2. ter comido bolo de chocolate 
Li War Brides, Helen Bryan. Idem, ótimas resenhas, história potencialmente interessante - me lembrou o romance que eu li mês passado sobre as pessoas na época da guerra e que era bem mais legal - mas não decolou. Pena, porque inclusive eram seis noivas diferentes, ou seja, muuuita chance e alguém ser muito fascinante, né?
Li A word child, da Iris Murdoch. Quem já viu o filme Iris? É uma coisa linda demais, com a Kate Winslet interpretando a escritora quando jovem e a Dame Judi Dench na época de sua morte. Mas não somos todos que estamos preparados para Iris Murdoch, e eu tentei Henry e Cato primeiro, e desisti. Porque estava achando chato, e claramente isso é falha minha - não estava preparada. Refiz a tentativa para A word child, a história do Hilary, um sujeito vivendo uma vida medíocre após um incidente que mudou sua vida e a vida de um companheiro na época da Universidade, anos atrás - até encontrar o tal companheiro. A história é absurda, você quer o tempo todo sacudir esse cara pelos ombros pra causar alguma reação que seja 'normal' - não que nada seja normal na vida dele, nem os amigos, nem a irmã, nem os companheiros de trabalho. Você fica imerso em toda essa loucura... muito bom, muito bem escrito, MUITO eloquente. 




A propósito: as mini reviews tb estão todas no meu goodreads, em inglês.







quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Letícia lê - semana 17 - Vale a pena ler de novo - Jubiabá, Jorge Amado

Nesse afã de reler livros, fui atrás do Jubiabá, que foi um dos primeiros livros que li na adolescência. Minha mãe tinha uma coleção cor de vinho e capa dura dos livros do Jorge Amado, e creio que deve ter sido um dos primeiros. Me lembrava de cenas que haviam ficado na minha cabeça - ele ser chamado de Baldo, virar lutador, alguém morrer no circo, alguns dos amigos, como Filipe, o Belo, ou Viriato, o Anão, sua paixão por Lindinalva e suas sardas, a tia que o criou e o dia que ela tem o surto e diz 'não vou mais, nunca mais'.
Curiosamente, descobri que quase tudo isso acontece na primeira metade do livro! Que pra mim é a mais emblemática e interessante, devo acrescentar. Como alguns dos outros livros do Jorge Amado, há uma certa dose de política envolvida, e eu gosto menos da história a partir desse momento.
O livro foi publicado em 1935, é preciso dizer. Antonio Balduíno é órfão e vive com a tia, até quando ela tem o surto e é internada num sanatório. Dali, ele é enviado para uma casa de família do comendador, onde permanece por quase dois anos e tem uma paixão platônica por Lindinalva, a filha dele, até que é acusado pela empregada de estar interessado sexualmente na menina e foge.
Vai morar no morro, vira malandro e monta um bando, muito a la Capitães de areia - minha imaginação já via Baldo cruzando com Pedro Bala. Ocasionalmente, visita Jubiabá, o pai de santo que empresta seu nome ao título, e a quem muito respeita, mas que acaba tendo pouca influência em seu caminho real.
Mais tarde, Baldo vira lutador e sai ganhando a vida como tal pelo sertão da Bahia, cruza com pessoas de seu passado, termina encontrando Lindinalva novamente, agora à beira da morte, fica com seu filho e se envolve com política. Viu como essa parte é menos divertida?
Ainda assim, pra quem não leu, vale. É uma das obras menos conhecidas do Jorge Amado, o que sempre achei muito injusto.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Letícia lê - semana 15 - Vale a pena ler de novo - Harper Lee, O sol é para todos

HARPER LEE To Kill A Mockingbird quote Literary by PoetryBoutique, $9.00

Eu fui reler To kill a mockingbird, porque saiu um livro novo da Harper Lee, que está velhinha e cujo único livro foi esse.
Aparentemente o livro novo é uma sequência, contada do ponto de vista da Scout, a protagonista que nesse livro tem 6 anos, talvez 7 - está indo para a escola pela primeira vez -  e narra a vida na cidade minúscula, os vizinhos e a dignidade que o pai carrega nesse verão no qual defende um negro, acusado de estuprar uma jovem filha de brancos, e sofre preconceitos de muita gente da cidade por isso, já que se partiu do pressuposto que essa defesa sequer valeria a pena.
Ou seja, eu li o livro e conhecia a história havia anos. E eu me lembrava, pra variar, pouco dele. Lembrava do Atticus Finch, o pai advogado, lembrava que a história era bem contada, lembrava que a protagonista era uma menina moleca, lembrava que tinha a ver com preconceito. À medida que fui lendo, me lembrei de algumas outras coisas - que a tia era toda certinha, que Scout gostava de ler e era precocemente alfabetizada, a vizinha com a qual eles se meteram e que era uma velhinha corajosa, embora cruel, o vizinho sobre o qual eles inventavam lendas infinitas - quem nunca...?
Mas como sempre, o que eu não me lembrava era o mais legal: fiquei chocada com algumas partes ** (vou colocar o spoiler aqui embaixo, se vc não quiser não lê), como se fosse a primeira vez que eu lia. Ri sozinha com as partes fofas, do tipo a Scout superalfabetizada e deixando a professora sem chão com sua falta de traquejo socialmente aceito - assim como sua vontade de acertar, quando mais tarde enfrenta quase sem querer o grupo na frente da delegacia falando com Walter Cunningham. Achei que Jem virou garoto enxaqueca meio cedo, considerando o ambiente, mas entendo que adolescentes são adolescentes, mesmo numa cidade perdida do sul, mesmo com tanta coisa mais importante que eles mesmos acontecendo.
Veredito: de qualquer modo, é daqueles livros gostosos de ler, que valem a pena porque ela é uma excelente contadora de histórias - o melhor tipo de escritor que há, não é mesmo?


On our common humanity:

Eu acho que só há um tipo de pessoa. Pessoas.



"One does not love breathing." - To Kill a Mockingbird

"Até que eu tive medo de não poder fazê-lo, eu nunca amei ler. A gente não ama respirar." (a professora, Miss Caroline, assustada com o fato de que Scout já sabe ler, tenta proibi-la de fazê-lo, dizendo que claramente o pai a ensinou de modo incorreto e ela fará de tudo para 'consertar' o que foi feito, enquanto Scout nem sabe o que dizer, já que aprendeu sozinha).

** chocada com o veredito unânime. Tipo, jura? achei que ele havia pelo menos feito uma cosquinha naquele povo.
** chocada com o fim do Tim Robinson. Achei muito triste, e achei que ele haveria de terminar de modo diferente.
** chocada com o extremo ao qual Ewley chegou. E com o fato de Dill ser um loroteiro. E com o fato de que não há nenhuma menção nunca à qualquer mulher que pudesse substituir a mãe de Scout e Jem.

quarta-feira, 18 de março de 2015

A Letícia lê - semana 11 - Timely classic - Clássico do momento - Um certo capitão Rodrigo, Érico Veríssimo

letrasinversoreverso:    Escritores e gatos     No dia em que faz 35 anos da morte do escritor Erico Verissimo, um raro momento: o escritor trabalhando na confecção de “Incidente de Antares”, em 1970, diante de seu gato de estima Snoopy.

Se a gente começa com essa foto, do Érico Veríssimo escrevendo com seu gato supervisionando, percebe que vai gostar do resto :)

Se na sequência a gente lê a primeira frase desse livro, que faz parte de toda uma série (O tempo e o vento), vê que no final dela já está imaginando o sujeito:

Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, vestia calças de riscado, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, a presilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas,batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
-Buenas e me espalho! nos pequenos dou de prancha, nos grandes dou de talho!

Eu nunca vi as séries de tv, e espero que você também não, porque assim consegue imaginar o seu próprio capitão Rodrigo e não os atores que a Globo escolheu para eles.

Não tenho meias medidas. Sou oito ou oitenta! - diz ele a Juvenal, na primeira conversa com um nativo de Santa Fé.
E em cinco minutos, já está o novo amigo seduzido: "Juvenal acendeu o cigarro, tirou duas tragadas e ficou a observar o forasteiro. Já começava a achar que ele tinha uma cara simpática. Só o jeito de olhar é que não era la muito agradável: havia naqueles olhos muito atrevimento, muita prosápia e assim um ar de superioridade." - "O diabo do homem tinha feitiço".Depois, vai seduzir o padre Lara, que será seu amigo até o fim também: "Padre, é melhor vosmecê ir logo dizendo o que quer. Isso de dar voltas é lá com o rio Ibicuí. Gosto de gente que vai direito ao assunto."

O livro também é engraçado: "Naquele momento seu desejo por Bibiana se confundia com uma sensação de fome e Rodrigo começou a pensar alternadamente na rapariga e num churrasco." E ele explicando o porquê não se rendeu à confissão para o padre quando estava à beira da morte é um deleite.

Não contente, é atual: "Governo é governo e sempre é divertido ser contra".

A paixão de Bibiana é um capítulo à parte, muito bem escrito: "Cuidar da casa, fazer comida para Rodrigo, ... tudo isso eram prazeres que ela gozava duma maneira miudinha, prolongada, bem como fazia no tempo de menina quando lhe davam um pedaço de rapadura e, evitando triturá-lo com os dentes, ela o deixava dissolver-se aos poucos na boca para que o doce durasse mais." - "O vício dela era Rodrigo". A descrição da volta de viagem dele seria quase um capítulo erotizado prum livro que foi escrito em 49 :) E Bibiana, sendo a antítese da mulher de hoje - aceitava as traições dele, esperava-o em casa, era cega de amor - ainda assim entendia Rodrigo "detestava que viessem falar dele com ar fúnebre". E tem orgulho do que viveu e como terminou, o que, dentro da história dela, é grande.

Ou seja, fiquei muito feliz de tê-lo escolhido e lido. Vou procurar alguns outros títulos de clássicos, e no meio deles espero ser digna de encontrar literatura brasileira que 'converse' comigo como o Erico Veríssimo é tão lindamente capaz de fazer com seus leitores.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Letícia lê - semana 8 - Vale a pena ler de novo :) - Anexos, Rainbow Rowell

Resolvi, num impulso, reler Anexos, ou Attachments, da Rainbow Rowell. Eu gosto de tudo nesse livro: da capa, que é muito fofa, da autora, por quem estou apaixonada, do formato da história - amo livros em forma de carta, e-mail, bilhetes, qualquer tipo de correspondência. Seja Fernando Sabino e Clarice, Simone de Beauvoir e Nelson Algren ou dois adolescentes como Ana e Pedro, da Vivina de Assis Viana, é certeza que vou gostar. Meu ponto fraco, acho.

Mesmo assim, a gente nunca sabe. A segunda vez que você lê um livro é aquilo de Heráclito, não é o mesmo rio nem o mesmo homem, porque a gente já mudou tanto e a água já passou.
Mas eu gostei tanto quanto da primeira vez, acho que mais, porque apesar da minha memória sem ferro ou cálcio, eu lembrava de algumas coisas, então havia menos ansiedade e pude apreciar integralmente o fato de que a Beth e a Jennifer são muito engraçadas e fofas, e eu queria muito ser amiga delas. Eu ri alto várias vezes. Além disso, eu queria ser amiga da Doris, da mãe do Lincoln, pegar o Lincoln pela mão e contar pra ele como ele não sabe quem ele é ou pode ser... sabe aquele livro com o qual você pensa que está com várias pessoas que são simpáticas e que podiam facilmente estar na sua vida?

É a coisa mais romântica e doce do mundo:
Você acredita em amor à primeira vista?
Não sei. Você acredita em amor antes disso?
Rainbow Rowell's Best Book Quotes on Love #Attachments


“I don't know if I even believe in that anymore. The right guy. The perfect guy. The one. I've lost faith in "the".
How do you feel about "a" and "an"?
Indifferent.
So you're considering a life without articles?” 

A propósito, milhões de citações fofas desse livro aqui: https://www.goodreads.com/work/quotes/13785503-attachments

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A Letícia lê - semana 4 - Vale a pena ler de novo :) Delicacy

Essa semana, fechando o mês, reli Delicacy, (está traduzido como A delicadeza, disponível em português bem aqui) do David Foenkinos, um autor francês. É um livro lírico, com cara de filme, de Walter Mitty, Amelie Poulain, Clementine e fofuras do gênero. Tem tristeza, mas é muito no nonsense, muito "a vida é melancólica e pode ser linda ao por do sol".

Há partes tristes, como "como de hábito, ela não conseguiu aproveitar o momento. Talvez isso seja tristeza: uma desconexão permanente do aqui e agora."; há partes agridoces "ele estava sozinho no mundo; e o mundo era Natalie". Há frases que resumem o que deve ser a sensação de ler um livro como esse: “He still felt just as light-headed, and a loop of the scene of the kiss kept playing in his head. It was already a cult film in his memory. Finally he opened the door to his apartment and found his living room much too small in comparison with his appetite for living.”

Tem coisa mais linda? Acho difícil. Sou muito apaixonada por esse livro. E vou te dizer outra coisa: tenho certeza que no original em francês ele deve ser mais lindo ainda. Ainda tomo coragem.

Fico com um pouco de remorso de reler livros, porque há tantos no mundo e tanta coisa que eu quero ler, mas é um acalento reler algumas coisas e descobrir que elas são realmente tão lindas e doces quanto você achou na primeira vez que leu, mesmo que hoje você seja outra pessoa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Letícia lê - semana 3 - Timely classic, Clássico do momento - Dom Casmurro, Machado de Assis

E aí eu li Dom Casmurro. Achei que era hora de ler literatura brasileira, e a Maria, do Bombuteco, mencionou tê-lo relido, e além de tudo esse tipo de livro é gratuito no kindle.

A quantidade de coisas que eu não lembrava sobre o livro! Lembrava do cerne da história (Capitu traiu ou não Bentinho com o amigo? O filho é ou não dele?) mas não me lembrava que isso na verdade é só o núcleo central, e tem um monte de coisas à volta. Por exemplo, a questão de ele ter sido prometido ao clero, as manipulações que faz desde adolescente em nome disso, tudo que acontece dentro da cabeça dele, a amizade dele com Escobar, a paranoia nos mínimos detalhes ("Ezequiel comia como Escobar, concentrado no prato"), a relação dele com as outras pessoas e com a solidão. Isso tudo sim é o que faz do livro algo incrível, e não somente a dúvida sobre a Capitu.

Não lembrava:

1. que o Bentinho é maluco. Vamos conversar, ma-lu-co. Um maluco imaginativo, meio travado, mas ainda assim... Ele sabe um pouco de algumas partes de si: "Tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão, defunto e tudo." ou "Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim"

"Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo."
Só que Bentinho se lembra das coisas, como todos nós, do jeito dele. Ele vai construindo as coisas na cabeça dele, e na verdade, no fundo até sabe disso.

Por exemplo, Bentinho imagina Otelo já matando Desdêmona no primeiro ato e como tudo seria diferente e como a vida é um teatro e diz que sabe que a vida não é assim.

Ao mesmo tempo: "Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles."

"Era um bom amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole." (analisando José Dias, a quem acha que é calculista e oportunista - agora me ocorre, existe alguém que ele não ache? Se a única pessoa com quem ele estreitou laços era Escobar... bom, tem a mãe. Mas verdade seja dita, ele teve um certo ódio da mãe quando ela o quis enviar para o seminário.)

2. Também não lembrava que o amor adolescente de Capitu e Bentinho era fofo, e poético, e até bastante realista:
"Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam de simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga."

"Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro."

"Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham..."

"Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarre-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me". (quando ela está falando de convencer a mãe de Bentinho de ficar.)



"Não sei se alguma vez tiveste 17 anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino foram um só curioso."

Bentinho sabia que Capitu era forte, e inteligente, e ao mesmo tempo que era seduzido por isso, seu ego não sabia muito lidar com o fato.






3. E que ele era absurdamente arrogante:

"... coisa que não era necessário dizer, mas há leitores tão obtusos, que nada entendem, se se lhes não relata tudo e o resto. Vamos ao resto."

"Ezequiel morreu de febre tifoide. (...) Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro." Esse deve ser o fim mais triste de um livro que eu já vi. Fiquei olhando pra última página um tempão. Que triste viver dentro de você, Bentinho. (e hats off to you, Machado de Assis! Você é sensacional!)

"E com uma letra bem pequena, lá estava escrito no seu epitáfio: Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativa frustradas tentou até amar... Pois bem, não conseguiu, e aqui está." - Dom Casmurro.

Mas minha charge favorita, desculpa aí, é essa: (e diz muito, não diz não??)